Há um jardim que ninguém conhece.
Não floresce na terra, nem se curva às estações.
Ele nasce dentro daqueles que amaram além do que o próprio coração suportava.
Suas flores não bebem água.
Bebem lágrimas que nunca chegaram aos olhos.
Cada pétala é um pedaço de alguém que precisou morrer por dentro para continuar respirando por fora.
Foi lá que enterrei todas as versões de mim que acreditavam na eternidade.
Não encontrei cruzes.
As estrelas já haviam assumido o ofício de guardar os mortos que continuam vivos na memória.
Desde então, caminho entre galhos feitos de lembranças.
Eles reconhecem meus passos, mesmo quando eu já não reconheço quem fui.
Às vezes, uma flor desabrocha.
Não porque a dor acabou...
Mas porque aprendeu a florescer dentro dela.
Descobri que o tempo não apaga ausências.
Ele apenas ensina o coração a carregá-las sem deixar de caminhar.
E, quando a noite se torna profunda demais,
deito-me sobre a relva desse jardim invisível.
As constelações descem lentamente como antigas jardineiras do universo.
Elas podam culpas, regam esperanças e iluminam as partes da alma que nem a luz do dia consegue alcançar.
Foi então que compreendi:
não existem amores perdidos.
Existem amores que mudaram de morada.
Alguns vivem ao nosso lado.
Outros habitam o perfume de uma lembrança, o silêncio de uma madrugada, o brilho de uma estrela ou o vento que insiste em tocar nosso rosto sem pedir licença.
E talvez...
quando minha própria primavera terminar,
alguém atravesse este mesmo jardim.
Toque uma dessas flores.
Olhe para o céu.
E sem saber meu nome,
leve um pouco de mim consigo.
Porque alguns jardins jamais pertencem a quem os planta.
Pertencem a todos aqueles que um dia precisaram sobreviver ao inverno do próprio coração.
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