Ainda era cedo.
A noite resistia em partir,
e o sol,
paciente como quem conhece
o tempo de todas as coisas,
apenas ensaiava nascer.
Foi então que a vi.
Uma única gota de orvalho,
repousando sobre a ponta de uma folha.
Tão pequena...
e, ainda assim,
carregando um universo inteiro.
Dentro dela,
o céu cabia.
As nuvens passavam silenciosas.
A luz se curvava.
O mundo inteiro
parecia ter escolhido
aquele instante
para existir.
Pensei em quantas vezes
nos sentimos assim:
pequenos demais,
frágeis demais,
à beira de desaparecer.
Sem perceber
que também carregamos
céus inteiros
dentro de nós.
Há quem veja
apenas uma gota.
Há quem veja
uma lágrima.
Outros verão esperança.
Porque toda lágrima
já foi esperança
lutando para não morrer.
E toda esperança,
antes de florescer,
precisou aprender
a permanecer suspensa
entre a queda
e a luz.
Quando o primeiro raio de sol
atravessou aquele pequeno cristal,
a gota deixou de refletir
apenas o mundo.
Ela passou
a iluminá-lo.
Foi então que compreendi:
não era a folha
que sustentava a gota.
Era a esperança
que sustentava o amanhecer.
Talvez seja esse
o verdadeiro milagre das manhãs.
Elas nunca perguntam
o tamanho da dor
que atravessamos durante a noite
Simplesmente chegam.
Em silêncio.
E oferecem,
na forma de uma única gota,
a prova de que até o universo
é capaz de recomeçar
todos os dias.
Talvez por isso
a manhã tenha olhos.
Ela procura,
gota por gota,
quem ainda acredita
que vale a pena
continuar florescendo.
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