Quando a alma é atingida,
não há ferida pequena.

As dores mais profundas
raramente vêm de estranhos.

Quase sempre nascem
daqueles a quem permitimos proximidade,
daqueles diante de quem
baixamos a guarda
e oferecemos, sem receio,
as partes mais vulneráveis de nós.

É justamente aí
que o golpe encontra passagem.

A ausência de empatia,
os gritos,
os semblantes cerrados,
a aspereza gratuita...

tudo isso exila a inocência
e afugenta a pureza daquele pequeno ser,
ainda tão indefeso
diante das malícias do mundo.

Então o corpo padece.

Como se a dor,
incapaz de permanecer apenas na alma,
precisasse procurar carne
onde pudesse sangrar.

E sangra.

Como se infinitas veias
houvessem sido abertas
ao mesmo tempo.

As lágrimas queimam a pele,
descem abrasivas,
e algumas sequer chegam aos olhos:

morrem antes,
presas na garganta.

O coração insiste em bater,
mas cada pulsação
parece atravessada por uma lâmina.

O punhal o alcançou.

Perfurou músculo,
átrio,
ventrículo,
e aquilo que a anatomia
jamais conseguiu nomear.

Pouco restou intacto.

Não houve apenas ferimento.

Houve laceração.

Daquelas que não se suturam
com linha,
tempo
ou silêncio.

A alma permaneceu ali,
fria,
solitária,
condenada a uma espécie de morte
que ninguém anuncia.

Sem velório.

Sem despedida.

Sem sepultura.

Apenas esquecida.

Como uma roupa antiga
abandonada no fundo de um guarda-roupa,
onde ninguém mais procura,
ninguém mais toca
e ninguém sequer percebe
que um dia teve valor.

Ali permanece.

Mofando devagar.

Apodrecendo em silêncio.

Talvez essa seja
uma das formas mais cruéis de morrer:

continuar existindo
onde já não há ninguém
disposto a reconhecer
que ainda existe vida.