Passou da meia-noite.
O vidro sua um frio que não entra.
Só observa.

Do lado de dentro,
o silêncio mastiga devagar
o pouco que sobrou de calor.

Lá fora, uma perdiz desafina a madrugada.

Estranho.

Há cantos que pertencem à manhã.
Outros anunciam o fim da tarde.

Mas aquele não parecia pertencer a hora alguma.

Era um canto fora do tempo.

Não vinha inteiro.
Vinha aos pedaços,
como um recado dobrado em quatro
e deixado por alguma coisa
que não teve coragem de bater à porta.

Fico na borda da cama,
sem acender nada.

Há noites em que a luz parece uma imprudência.

E naquela, por alguma razão,
eu não queria que a casa soubesse
que eu estava acordado.

O relógio desaprende os números.
Cada minuto é uma sala vazia.
Cada sala, um eco.
E nenhum deles devolve meu nome.

A perdiz se cala.

Por alguns segundos,
o mundo inteiro parece prender a respiração.

Espero.
Não sei o quê.

Talvez seja isso que chamamos de pressentimento:
esperar por alguma coisa
que ainda não aconteceu,
mas que, em algum lugar da alma,
já começou a doer.

Então a perdiz canta outra vez.

Mais longe.

Ou talvez seja a noite
que tenha chegado mais perto.

Sinto um aperto antigo no peito.
Não chega a ser medo.

Medo tem rosto.

Aquilo não.

É apenas aquela sensação estranha
de quando o coração reconhece alguma coisa
antes que a razão consiga compreendê-la.

Como se uma lembrança que não é minha
tivesse acabado de passar pelo corredor.

Como se alguém,
em algum lugar muito distante,
houvesse pronunciado meu nome.

Meu avô talvez chamasse de aviso.
Os antigos sabiam escutar certas coisas
que nós aprendemos a chamar de coincidência.

Eu prefiro não chamar de nada.

Há coisas que ficam maiores
quando recebem nome.

A ave insiste.

Irregular.
Teimosa.
Quase aflita.

Uma vez.

Silêncio.

Outra.

Silêncio.

E então compreendo que o que me inquieta
não é o fato de uma perdiz cantar
quando deveria estar dormindo.

É a impressão absurda
de que ela não está cantando para a noite.

Está chamando.

Não sei quem.

Não sei de onde.

E, por alguma razão,
não quero descobrir.

Respondo por dentro,
sem mover os lábios,

como quem combina um segredo
com aquilo que existe entre a noite
e o primeiro clarão da manhã.

Não peço socorro.

Não peço aurora.

Não peço que o amanhã venha depressa.

Peço apenas que aqueles que amo
permaneçam onde estão.

Que nenhuma porta se abra.

Que nenhum telefone toque.

Que nenhum nome querido
atravesse esta madrugada
para se transformar em saudade.

Lá fora,
a perdiz canta uma última vez.

Depois, silêncio.

Um silêncio diferente.

Quase respeitoso.

Como se alguma coisa tivesse passado pela casa
e decidido continuar seu caminho.

Continuo sentado na borda da cama.

Não acendo a luz.

Não olho o relógio.

Apenas escuto o frio
respirando do outro lado do vidro.

E, antes de voltar a me deitar,
faço um último pedido à noite:

se houver alguma coisa caminhando por aí,
que não encontre minha porta.

E se encontrar...
que o frio saiba meu nome
e passe sem fazer barulho.