Ela foi relâmpago sem tempestade.
Clarão que abre a noite
e fecha no mesmo fôlego,
deixando apenas um zumbido fino no ar.

Foi como um fósforo riscado:
chama breve, intensa,
que beija o ar por um instante
e entrega somente o cheiro como lembrança.

Não foi ausência de marca.
Foi marca de ar,
dessas que não cabem em moldura
nem se deixam prender pela memória.

Depois, ficou o silêncio.

Um silêncio que mastiga devagar,
como quem prova um sabor
que ainda não sabe nomear.

O peito virou casa
com uma luz acesa à toa,
esperando um passo
que talvez nunca tivesse prometido voltar.

Na janela,
só o vento folheava promessas
que ninguém chegou a fazer.

E ainda assim,
não era exatamente vazio.
Era espaço.

Espaço que conheceu uma presença rápida,
um voo breve,
um toque quase sem pouso.

Como um beija-flor
que atravessa o jardim,
encontra o néctar,
bate as asas depressa
e desaparece antes mesmo
que a flor compreenda o que aconteceu.

Fica apenas o perfume suspenso,
o tremor das pétalas
e aquela dúvida silenciosa:
se foi passagem,
se foi desejo,
ou se algumas coisas simplesmente existem
para serem intensas demais
para durar.