Por muito tempo,
chamei de dor
aquilo que não cabia
em palavra alguma:

saudade,
ausência,
silêncio,
perda.

Dei a ela
todos os nomes
que os homens inventaram
para não encarar de frente
o que realmente permanece.

Foi preciso atravessar
o inverno das horas mudas,

beber da água amarga
dos dias incompletos,
para entender
que a dor nunca foi o destino.

Era só o caminho
que o amor encontrou
para continuar existindo
quando já não podia ser abraço.

Porque o amor verdadeiro
não desaparece
quando perde a presença.

Ele apenas muda de lugar.

Sai das mãos
e vai morar na lembrança.

Sai dos olhos
e aprende a respirar
no silêncio.

Deixa de andar ao lado
de quem partiu

e passa a caminhar
dentro de quem ficou.

E, no fim,
compreendi o que levei
uma vida inteira pra aprender.

Não chorei só
porque perdi.

Chorei porque amei
além do que o tempo
poderia desfazer.

Se um dia me perguntarem
o que encontrei
depois de atravessar
todos os corredores da ausência,

vou responder apenas isso:
Encontrei o amor.