Ela me disse:
Você ilumina por onde passa,
mas não deixa a luz entrar.
Deixa alguém te tocar.
Deixa o sol te aquecer.
Nem todo calor veio para queimar.
Fiquei em silêncio.
Talvez porque algumas palavras
não encontrem resposta;
encontrem cicatrizes.
Então pensei:
— Eu só queria sair deste inverno
e viver uma eterna primavera.
Ela sorriu como quem já conhecia a resposta.
Porque nada é tão simples.
As estações são bem definidas,
assim como a vida.
Há tempos de florescer
e tempos em que até as árvores
precisam perder suas folhas.
Há dias em que somos verão:
intensos, excessivos,
acesos demais para caber em nós mesmos.
Há dias de outono,
quando precisamos aprender
que deixar partir
também é uma forma de permanecer inteiro.
E existem os invernos.
Longos.
Silenciosos.
Cruéis às vezes.
Neles, a gente aprende a sobreviver
com pouco calor,
a esconder as mãos nos bolsos
e o coração em lugares ainda mais fundos.
Talvez o problema seja esse:
depois de atravessar invernos demais,
a gente começa a desconfiar da primavera.
Quando alguém chega trazendo sol,
procuramos a tempestade escondida atrás dele.
Quando uma mão tenta nos tocar,
lembramos das outras que feriram.
Quando o calor finalmente encontra nossa pele,
recuamos;
porque quem passou muito tempo no frio
também precisa reaprender a ser aquecido.
Então compreendi:
eu não precisava de uma primavera eterna.
Precisava apenas parar de lutar contra as estações.
Aceitar que haverá dias de sol
e outros em que o céu pesará sobre os ombros.
Que algumas flores morrerão,
outras nascerão onde eu jamais plantei,
e certas árvores parecerão mortas durante meses
quando, silenciosamente,
estão preparando raízes para florescer outra vez.
Talvez viver seja exatamente isso:
não procurar uma estação perfeita,
mas aprender a atravessar todas elas
sem perder aquilo que ainda floresce dentro de nós.
E, principalmente,
quando depois de um inverno muito longo
alguém se aproximar devagar
e disser:
— Deixa o sol te aquecer...
ter coragem suficiente
para não fechar a janela.
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