Há um momento em que a gente cansa.
Não de uma noite mal dormida,
nem do peso comum dos dias.

Cansa por dentro.

Cansa de pedir ajuda
e descobrir que algumas mãos
só aparecem quando não precisamos delas.

Cansa de dizer
“eu não estou bem”
e perceber que as palavras caíram no chão
sem que ninguém se abaixasse para recolhê-las.

Eu pedi.

Talvez mais vezes do que gostaria de admitir.
Pedi à família.
Pedi ao amor.
Pedi à vida.

Em algumas noites,
acho que pedi até ao silêncio.
E ele foi o único que respondeu.

Tentei permanecer onde alguma coisa em mim
já vinha desmoronando.

Dei novas oportunidades,
novos começos,
novas versões de mim mesmo.

Disse:
“desta vez pode ser diferente.”

Depois disse outra vez.
E outra.

Até perceber que existe uma espécie de exaustão
que não nasce do fracasso.
Nasce de tentar demais.

Tenho empurrado portas,
remendado paredes,
erguido aquilo que insiste em cair.

Corro de um lado para outro
tentando salvar o que construí,
o que amo,
o que ainda gostaria de amar.

Mas há dias, como hoje,
em que minhas mãos simplesmente descem.

Não porque deixei de me importar.
Talvez justamente porque me importei demais.
Esperei o girassol.
De verdade.

Esperei aquela pequena confirmação
de que depois de tanto inverno
alguma coisa finalmente se voltaria para a luz.

Mas algumas primaveras atrasam.
E quem espera também sente frio.
Então hoje não quero discursos sobre força.

Não quero ouvir que amanhã será melhor.
Não quero outra oportunidade embrulhada
num pedaço de esperança.

Hoje eu só queria não precisar lutar.
Porque a gente cansa de ir.
Cansa de desejar.

Cansa de bater em portas fechadas.
Cansa de explicar a própria dor
para quem deveria percebê-la pelo olhar.

Cansa de acreditar sozinho.
Cansa de implorar.

E talvez exista uma dignidade silenciosa
em finalmente admitir:
eu não consigo carregar tudo hoje.
Hoje deixo algumas coisas no chão.
Não como quem desiste da vida.

Mas como quem compreende
que até os braços mais fortes
precisam soltar o peso
antes que o peso os leve junto.

Se amanhã eu me levantar,
que não seja para provar nada a ninguém.

Que seja devagar.
Talvez sem grandes planos.
Talvez sem promessas.

Talvez apenas para abrir a janela
e descobrir se, em algum lugar,
ainda existe um girassol
que eu não precise perseguir.

Um que simplesmente esteja ali.
Virado para o sol.
Esperando por mim.