Passei o dia respirando
entre uma coisa e outra,
como quem abre espaço
apenas pra continuar.

Havia sempre alguma coisa
chegando antes de mim:
uma pergunta,
uma urgência,
o próximo gesto.

Até a pausa
já tinha compromisso.

Quantas vezes é assim?

A gente atravessa as horas
com os ombros erguidos,
a mandíbula apertada,
sem perceber quanto esforço custa
não se permitir descansar.

Foi naquela presença
que a respiração desceu mais fundo.

Sem precisar contar o peso das horas,
deixei os ombros cederem.

O ar saiu devagar.

Um suspiro
que só ali encontrou passagem.

Talvez o corpo reconheça certas coisas
antes que a gente saiba nomeá-las.

Talvez saiba onde pode demorar,
onde o silêncio encontra espaço
pra durar o quanto precisa.

Fiquei.

Ainda havia o que resolver.
O dia continuava sendo o mesmo,
mas cabia mais ar em mim.

E pensei em quantas vezes
a gente espera que tudo se ajeite
pra então se permitir estar em paz.

Como se viver fosse o que sobra
depois de dar conta de tudo.

Ali,
a respiração encontrou
seu próprio tempo.

Deixei alguma coisa por terminar.

Pude permanecer perto,
sem procurar um gesto,
uma palavra,
uma maneira de merecer
aquele instante.

Havia lugar pra mim
antes que eu tivesse
qualquer coisa a oferecer.