Hoje meu corpo
não fala bonito.
Ele range.

Dói de um jeito surdo,
fundo nos músculos,
onde o descanso
não alcança.

O braço adormece.
Eu mudo de posição,
tento soltar.
Não solta.

A noite chega
e eu continuo.

Um movimento,
depois outro.

Meus passos sabem o caminho;
eu vou ficando pra trás.

Já não escolho o gesto.
Meu corpo repete.

Dói mais ali,
na cabeça
que não acha lugar
pra encostar.

Chega,
eu digo,
mas levanto
pra terminar alguma coisa.

Chega,
eu repito
com as mãos
ainda ocupadas.

Até meu grito
fica pra depois.

Isso me dói.
Isso me quebra.
Isso me esquece.

Vou atravessando as horas
sem conseguir habitá-las,
fazendo o que sempre faço,
cada vez mais longe
do que sinto.

Socorro.

Tô cansado
até onde não sei dizer.

Quero pousar as mãos
e sentir que elas repousam.

Eu preciso parar.

Pouso as mãos.
Fecho os olhos.

Mas o dia continua
aberto
dentro de mim.