Sentei para jantar com meus medos.
Um a um,
eles tomaram seus lugares à mesa.
Olhei nos olhos
daquilo que por tanto tempo me assombrou,
mas, dessa vez,
não abaixei a cabeça.
Disseram tudo o que eu já sabia:
dos erros que escondia sob os olhos,
das culpas empurradas para os cantos,
das feridas que eu cobria
para não precisar tocá-las.
E eu fiquei.
Não fugi.
Não apaguei a luz.
Não procurei uma porta,
nem inventei desculpas
para abandonar a mesa.
Também não bebi
para calar as vozes.
Deixei que falassem.
E, quando terminaram,
percebi que nenhum daqueles monstros
sabia algo sobre mim
que eu já não carregasse por dentro.
Foi então que restou apenas um homem.
Não um homem sem medo,
mas alguém que já não precisava fugir dele.
Porque há um ponto
em que não existe mais nada a temer
quando se teve coragem
de atravessar os próprios corredores escuros
e encarar aquilo
que sempre esteve esperando no fim deles.
Não venci porque lutei com raiva.
Venci porque aprendi a me encarar.
Porque descobri
que alguns demônios não precisam ser derrotados:
precisam apenas ser olhados por tempo suficiente
até deixarem de parecer gigantes.
A noite continuou lá fora.
Escura.
Silenciosa.
Imensa.
Mas já não havia nela
nada que pudesse me assustar.
Porque, naquela mesa,
eu compreendi:
depois que um homem encara
todas as sombras que carrega dentro de si,
a escuridão do mundo
parece apenas noite.
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