Há algo por dentro
que procura a água.
Algo que se aproxima do alívio,
mas estremece
ao primeiro toque.
A água bate no corpo,
queima feito brasa
e corta feito canivete.
Ao escorrer,
desce com ela
o sangue da alma.
A pele permanece inteira,
mas cada gota encontra
um lugar ferido
que o corpo não sabe apontar.
Há um susto em receber
o que deveria aliviar
e sentir os ombros
se contrair ainda mais.
Por um instante,
parece possível
que a água leve
aquilo que pesa
sem ter forma.
Mas como entregar à corrente
o que nem sequer
consegue nomear?
A cabeça se inclina.
As gotas continuam caindo.
Já não se sabe
onde termina a água,
onde começa o pranto,
nem há quanto tempo
essa dor procurava
por onde escorrer.
No chão,
tudo segue transparente.
E custa compreender
como pode sair tão limpo
de tudo o que atravessou.
Ainda arde,
mas eu fico.
Uma calma que não apaga,
só aprende
a encostar.
Mas, por enquanto,
fica em aberto.
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