Há momentos em que a ausência ainda nem encontrou lugar dentro de nós,
e a vida já exige que continuemos.

Como se perder não fosse suficiente.

Como se certas despedidas, além de levarem alguém,
também retirassem o véu de muitas coisas.

Porque, às vezes, é justamente diante da fragilidade
que descobrimos quem se aproxima para amparar
e quem apenas se aproxima para tomar.

Talvez algumas perdas revelem tanto sobre os vivos
quanto sobre aqueles que partiram.

E há também o tempo.

Esse velho mistério que atravessamos distraídos,
como se nos pertencesse.

Vivemos adiando palavras, abraços, presenças,
convencidos de que haverá sempre um depois.

Até que, em algum momento,
a própria vida coloca um relógio sobre a mesa.

E tudo muda de peso.

Um dia deixa de ser apenas um dia.
Um abraço demora um pouco mais.
Uma despedida passa a carregar perguntas.

E a esperança, antes tão descuidada,
começa a ser protegida com as duas mãos.

Talvez seja então que compreendamos
que o tempo nunca esteve verdadeiramente sob nosso domínio.

Nós apenas o atravessamos.

E, no meio dessas travessias,
há quem continue caminhando mesmo cansado.

Há quem carregue pesos que ninguém vê.

Há quem percorra distâncias que jamais serão medidas em quilômetros.

E há quem, sem pronunciar grandes discursos,
pareça dizer:

“Enquanto eu puder caminhar,
você não ficará sozinho.”

E isso me faz pensar:

o que sustenta alguém quando tudo ao redor começa a pesar?

O que nos faz permanecer quando seria mais fácil abandonar?

Talvez tenhamos procurado por tempo demais
o sentido da vida nas grandes respostas.

Talvez ele esteja escondido justamente
nessas pequenas resistências.

Em quem continua de pé
mesmo desejando apenas o direito de desabar.

Em quem olha para a incerteza
e, ainda assim, pergunta quais caminhos restam.

Em quem escolhe carregar
quando o outro já não consegue seguir sozinho.

Porque existem distâncias
que não se medem em quilômetros.

Existem pesos
que nenhuma balança conhece.

E existem formas de amor
que nunca precisarão ser explicadas.

Talvez a vida não nos pergunte apenas
quanto somos capazes de suportar.

Talvez a pergunta seja outra:

quando aquilo que amamos já não puder caminhar sozinho,
até onde estaremos dispostos a carregar?