No claro-escuro da noite,
uma serpente antiga desperta
entre pétalas que tremem.
Não por medo.
Talvez por reconhecimento.
Como se o jardim já soubesse
que certas presenças não chegam de repente;
apenas aguardam o instante certo
para serem percebidas.
Ela não rasteja.
Desenha caminhos.
Contorna silêncios,
atravessa perfumes,
desliza sobre um jardim que respira.
Cada curva,
uma promessa.
Cada brilho úmido,
um segredo.
As flores não recuam.
Abrem-se.
E talvez seja justamente aí
que mora o perigo:
nem tudo aquilo que nos ameaça
chega com aparência de ameaça.
Há venenos que perfumam.
Há espinhos que florescem.
Há vertigens que começam
como uma simples vontade de permanecer.
Quem toca o jardim
precisa aprender a ouvir.
O sussurro das folhas.
O silêncio entre uma pétala e outra.
O instante exato
em que a dança deixa de ser apenas dança
e se transforma em abismo.
Ainda assim,
há quem escolha ficar.
Não por desconhecer o risco,
mas porque certas belezas
só revelam sua verdadeira natureza
a quem aceita aproximar-se delas.
Talvez desejo seja justamente isso:
chegar perto o bastante
para sentir o perfume da flor,
sem esquecer
que entre suas pétalas
pode dormir uma serpente.
E talvez alguns perigos
não existam para serem evitados.
Talvez existam apenas
para nos lembrar
que até aquilo que floresce
pode carregar veneno.
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