Naquela noite,
o vento batia frio em meus ossos,
como se soubesse encontrar
o que a pele escondia.

Eu conversava com a lua.

Falava dos planos
que ainda não tinham chão,
dos desejos que adiava
enquanto procurava
a melhor maneira de começar.

Esperava dela um conselho,
uma palavra que eu pudesse levar
para dentro de casa
e guardar perto de mim.

Uma ideia, depois outra.
Eu retomava um plano antigo,
ensaiava um futuro,
deixava outro pela metade.

A lua permanecia em silêncio.

Havia um desejo
ao qual eu sempre voltava.
Mudava as palavras,
procurava razões,
demorava nos detalhes.

Quando chegava perto de dizer
por que o queria tanto,
começava a falar de outra coisa.

O vento atravessava essas pausas.
Eu recolhia os braços junto ao peito
e retomava a conversa
de um ponto mais distante.

Foi entre uma palavra e outra
que percebi:
eu falava dos meus desejos
como quem precisava justificá-los.

E eu já não sabia
diante de quem
ensaiava tantas explicações.

Olhei para a lua.
Por um instante, imaginei
o que faria
se ela concordasse comigo.

Quanto tempo duraria aquela certeza
quando eu fechasse
a porta de casa?

Fiquei em silêncio também.

Ouvi minha respiração,
o rumor das folhas,
a vida seguindo ao redor
enquanto eu esperava
saber o suficiente para começar.

Quando o sol nasceu,
a luz encontrou minhas mãos
abertas sobre os joelhos.

Fiquei olhando para elas.
Tão próximas,
depois de uma noite inteira
com os olhos no céu.

Voltei àquele desejo.

Dessa vez,
consegui dizê-lo até o fim.
Esperei um pouco.
Nenhuma desculpa veio depois.

Deixei que permanecesse ali,
por um instante,
sem defesa.

Ainda era meu.

Pensei no que poderia fazer
com as mãos que tinha,
naquele dia.

Escolhi por onde começar.

O vento ainda doía nos ossos
quando me levantei,
mas já não esperei
que passasse.