Saí cedo naquele domingo.

A cidade ainda despertava devagar,
espreguiçando-se entre o cheiro do café fresco
e o som distante de portas se abrindo.

Entrei na padaria em busca de salgados,
alguns biscoitos,
e qualquer desculpa para tornar a manhã mais saborosa.

Foi então que a vi.

Entre vitrines iluminadas
e prateleiras repletas de tentações,
havia uma que não carregava etiqueta,
nem preço,
nem receita.

Usava óculos escuros.

Vestia-se com a simplicidade elegante
de quem não precisa chamar atenção,
embora inevitavelmente a atraísse.

As curvas desenhavam-se suavemente sob o tecido,
como colinas douradas sob a luz do amanhecer.

E ela sorriu.
Um sorriso breve.

Daqueles que duram segundos,
mas permanecem horas.

Com delicadeza,
ergueu os óculos até a testa.

Foi apenas um gesto.
Ou talvez não.

Porque certos cumprimentos
carregam mais intenções do que palavras inteiras.

Por um instante,
o mundo reduziu-se àquele olhar.

Os pães continuavam saindo do forno.

O caixa chamava clientes.
As xícaras tilintavam.
Mas tudo parecia distante.

Eu havia encontrado o melhor biscoito da padaria.
E nem sequer estava exposto na vitrine.

Havia algo perigoso naquela mulher.
Não uma beleza escandalosa.

Mas aquela espécie rara de encanto
que se aproxima sorrindo
e permanece morando nos pensamentos.

Terminei minhas compras.
Levei pão de queijo.
Levei biscoitos.
Levei café.

Mas saí dali com outra fome.
Uma fome estranha.
Daquelas que não se resolvem à mesa.

Daquelas que um simples sorriso,
atrás de um par de óculos,
tem o poder de despertar.

E durante todo o caminho para casa,
o aroma do café recém-passado
competia inutilmente
com a lembrança daquele olhar.